Como escritor tive a sorte de ter meus préstimos reconhecidos muito cedo por meus parentes. Tudo bem que as mensagens de final de ano e os discursos para cooperativas de taxistas não são minha área de predileção, mas ao menos os meus parentes parecem reconhecer em mim “alguém que escreve” – muito embora eles achem que morrerei de fome se continuar insistindo nisso.
Fora essas pequenas contribuições, capazes de encher de nostalgia as minhas tias mais velhas e homens acostumados a dirigir oito horas por dia, esse quase ofício me dá muitas outras alegrias – o Tico que o dia. Tico é um humilde e laborioso carroceiro cujo trabalho fica próximo à casa de minha mãe. Certa vez, quando eu estava indo ao trabalho, abordou-me cheio de cerimônias: seu Thomaz, posso lhe fazer uma pergunta? Além dessa que você acabou de fazer, perguntei e deixei Tico rindo sem graça. Fala, Tico. O que foi?, emendei. Tico endureceu o corpo e foi falando as palavras devagar, como se as escolhesse nos dedos. É que me falaram que o senhor é poeta. Meu Deus, pensei com meus botões, finalmente fui descoberto! Estão dizendo isso por aí, Tico? É, confirmou. Sim, impacientei-me, mas o que você quer? Encolheu os ombros, em seguida baixou a cabeça em sinal de humildade, olhando para o chão. É que conheci uma moça, mas não tenho coragem de me declarar e como o senhor, como ouvi dizer, mexe tão bem com as palavras – ele coçou a cabeça e suspirou profundamente – pensei se o senhor não poderia escrever uma carta de amor para eu entregar para ela.
Não lembro direito o que pensei em responder, acho que fiquei entre mandar ele se virar e conquistar a mulher ou simplesmente fugir para meus compromissos. Como tenho grandes dificuldades em dizer não, gesto que nada tem a ver com bondade, acabei jogando mais lenha naquele coração em brasas. Convidei-o a sentar-se comigo a uma mesa de uma lanchonete próxima e pedi para Tico abrir seu peito machucado, para que eu pudesse escrever alguma coisa – vocês sabem, o “poeta” precisa dessas dores genuínas que apenas são encontradas nos peitos desses apaixonados.
Não revelo o conteúdo da carta, porque aí seria bulir demais com os sentimentos do menino. O que foi curioso é que ao final da confecção da carta ele, todo empolgação, puxou uma cédula de dez reais, oferecendo-a. Olhei novamente para os céus e pensei: não deixa de ser um retorno financeiro. Tico, falei, guarda esse dinheiro e compra um presente para a moça, ela vai gostar. Tico levantou-se animado, segurando o pequeno pedaço de papel que nos consumiu quarenta e cinco preciosos minutos de vida. Antes de sumir, prometeu-me contar o resultado da empreitada.
Semanas depois, com a lembrança do evento enfraquecida em minha mente, mais uma vez fui abordado por Tico. No entanto, depois de compartilhar com ele tamanhas sentimentalidades, seu cumprimento foi muito mais efusivo: um sacolejo que me faltou quebrar os ossos, tanto que achei que a carta havia sido responsável por verdadeiro massacre sentimental. Na verdade, o efeito fora diverso do que eu pudera imaginar, ela adorara e estavam até de compromisso firmado. Agradeceu novamente e antes de voltar aos seus afazeres profissionais, disse-me: “Essa mulher é pra casar, poeta! Pra casar, poeta!
A felicidade de Tico me contagiou naquele dia e fiquei me fixando na palavra poeta. Às vezes é bom sentir-se um poeta, porque o mundo pode ser triste, mas ele pode ser melhorado quando se contribui com um versinho qualquer para torná-lo mais belo – criando uma obra monumental ou até escrevendo uma cartinha de amor para um carroceiro enamorado –, isso faz com que ele fique um pouquinho mais alegre.
Todo cara metido a escritor (sou um deles) um dia foi um Cyrano de Bergerac rs.
ResponderExcluirLegal o texto! O mundo ainda precisa de poetas e poesia.
Ah Thomaz, para mim somente a maneira que você nos conta esta história já faz dela poesia, muito boa a escrita...o modo como coloca em palavras os anseios românticos do Tico, já me faz imaginar o teor da carta...Continue poeta, e deixe a imaginação tomar forma de palavras. Boa semana. Abraço!!
ResponderExcluirBelo texto, Caro Thomaz. E fica a pergunta: quando teremos a oportunidade de ler um poema teu?
ResponderExcluirAbraços,
Murilo.
Ai, que coisa mais lindaaa!
ResponderExcluirE pode haver recompensa maior? Não conheço!
Beijo
=)
Muito bacana.
ResponderExcluirEu sempre fui a "escrevinhadora" das homenagens póstumas também, rss.
Meu nobre Thomaz, deixe de lado a modéstia, ou como dizem no meio da moçada, Fala sério, né? Uma crônica dessas as gente não lê, saboreia. Abração. Paz e bem.
ResponderExcluirQue legal que virou crônica. Sempre me sentir tocada por esse seu momento. Adorei!
ResponderExcluirBiejos meu querido.
...traigo
ResponderExcluirsangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...
desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ
TE SIGO TU BLOG
CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...
AFECTUOSAMENTE
THOMAZ
ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE LOVE STORY, CABALLO, LA CONQUISTA DE AMERICA CRISOL.
José
ramón...
O que é isso amigo Thomaz, não há nada que perdoar, afinal o amor é piegas mesmo, e ainda bem, dado a mistura de simples e complexo o amor é único e magnânimo. O amor é o que mais importa, o resto sobra. Abraços e um domingo cheio de amor para ti...
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