sábado, 14 de novembro de 2009

O caranguejo


Meu primeiro contato com a maldade humana foi aos cinco anos, ainda que esta tenha sido sentida em seu estágio mais primário, momento em que chamam esse ensaio da pobreza moral simplesmente por traquinagem. O evento, mesmo na tenra idade em que me encontrava, foi, na minha vida adulta, a pedra de toque para minhas relações tão arredias com os outros homens.

Costumava passar os fins-de-semana na casa de minha avó. A casa era em um desses bairros, que antes de serem destruídos pela especulação imobiliária, agregavam uma classe média refinada – a fina flor de minha cidade. Lá se podia brincar livremente com os outros meninos, oportunidade que eu não desfrutava em minha casa, que ficava em um bairro mais afastado e intranqüilo. Naquele ambiente de condomínio fechado estávamos entregues ao tempo e a nós mesmos, então gastávamos a nossa tarde em atividades cuja finalidade não era específica, fosse priorizando a brincadeira, inserindo nas conversas os palavrões que não se falava em casa ou então refestelando-nos na vadiagem incriticável das tardes mornas.

Foi em um desses dias de minha desaparecida infância que, a fim de explorar as redondezas, desgarrei-me do grupo e me declarei rei de um pequeno quinhão. Investido de repentina autoridade, corri por entre as árvores; espantei borboletas; lutei espadas com o vento e rolei na grama em um riso alto e bobo de criança. Uma vez satisfeito de meus desejos individualistas, começava a retornar ao grupinho quando vi, deslocado do cenário e enfiado em um tronco, um bicho que até então não havia visto em minha curta vida. Horas mais tarde, com a cabeça no colo de minha mãe, saberia, de fato, que era um caranguejo. Ainda hoje os acho curiosos, osso por fora, a carne por dentro. A arquitetura ousada, hábil na lama, um despropósito no jardim em que estávamos naquele dia. Uma dessas belezas rústicas em que Deus, numa sutileza, faz questão de não fazer arte-final. Impressionante como podia surgir vida pulsante no lodo e não estava lá na bíblia que Ele, se quisesse, poderia fazer surgir das pedras filhos de Abraão? Como poderia ter parado ali? A maré era longe, provavelmente, assim como eu, desgarrara-se de sua cambada, dando prejuízo à outra criatura que do lodo também tirava seu sustento. Fiquei olhando, olhando, o corpo não emanava vida, senão dos estranhos olhos que se moviam curiosos (me olhando?) para todos os lados. Aproximei-me cauteloso, não sabia se ele corria, voava – em minha cabeça ele podia fazer qualquer coisa. Em resposta o bicho levantou em ameaça a garra, a maior, a que devia usar para se defender de momentos como o que estávamos vivendo. Estanquei, mas não era medo, era uma admiração, achei-o lindo dentro dos limites de sua identidade. Deus é muito grande para existir por si só. Ele tem que se dividir para estar em todos os lugares, exposto e escondido nos pequenos fenômenos em que faz o homem, criatura em meio a outras criaturas, descobrir a si mesmo no silêncio da contemplação solitária. Queria mostrar ao demais, não ter só para mim os frutos de uma natureza tão generosa. Fui chamar os outros meninos. Não sabia do que chamar o meu achado, podia chamá-lo do que quisesse, a mim havia sido segredada a sua existência.

Quando chegamos, ele estava no mesmo lugar, inamovível. Os garotos olharam. Um deles riu e disse decepcionado: “Mas é só um caranguejo”. Achei o nome feio, eu poderia ter dado um melhor. De repente, sem que pudesse entender algo, vi uma pedra voando e a garra do caranguejo, a maior, desprender-se, caindo sem vida no chão. Voaram outras, na verdade uma chuva delas e de um momento a outro não havia mais caranguejo, só uma massa de carne indefinida. Os meninos riam, gritavam. A maldade neles surge assim, uma reação em cadeia impensada, onde o evento que sucede o outro não é resposta, mas estímulo de seu antecessor. Alegremente foram saindo, eu destruído por dentro, sem ter podido protestar ou entender os motivos do que fizeram – uma maldade! Anos mais tarde – quando os meninos já eram homens – eles não se lembrariam do ocorrido, mesmo que eu lhes tentasse reavivar a memória acerca do pequeno crime. Horrorizado, permaneci quieto, sem entender meu erro. Os meninos foram brincar – ainda havia muito para brincar.

Voltei à casa de minha avó chorando. Minha mãe, ao ver meu sofrimento, me afagou e contei-lhe o ocorrido. Consolado por minha genitora, adormeci e ainda triste sonhei sonhos sem caranguejos. Não voltei ao bairro durante muito tempo. Naquele dia aprendi duas coisas: que existem segredos que nasceram para ser segredos e que a dor – esta linguagem universal, capaz de unir homens e bichos – não se expressa aos gritos, como defendem os vegetarianos para justificar seu apetite por folhas, mas na linguagem do olhar, capaz de perceber aquilo que sofre. Os anos se passaram e eu cresci.

domingo, 1 de novembro de 2009

Do irrepetível


Minha mulher estava sugerindo alguns temas de crônicas quando surgiu a palavra irrepetível. Palavra forte e de teor muito definitivo. Mas ela soava estranha em meus ouvidos, tinha algo que me fazia duvidar de sua aplicabilidade no mundo morfossintático. Como não possuo dotes de filólogo, essa ciência de suma importância e pouco reconhecimento, pedi o auxílio do guia de ignorantes como eu, fui consultar o dicionário.

Usei o Silveira Bueno, antes tivesse usado o Aurélio, pois acabei não achando a tal palavra. Então vai aí uma definição intuitiva, de palavra cuja existência é duvidosa, de quem não é autoridade em coisa alguma. Irrepetível. Diz-se de algo que não se repete; único; diz-se daquilo que só acontece uma vez. Por meio de uma noção, ainda que superficial, pode-se vislumbrar o poder do que é irrepetível e da força que exerce na existência.

Dizem por aí que a vida é curta. É verdade, ela é curta mesmo e até onde se sabe – a despeito de Budismo, Espiritismo, Orfismo e demais doutrinas que falem em encarnação – é praticável não mais que uma única vez. Portanto, irrepetível. Como esta – a vida – é feita de momentos e momentos, existem aqueles que nós gostaríamos que se repetissem: o primeiro beijo de amor, o nascimento do filho, um dia especial. Naturalmente também existem os momentos em que damos graças aos céus por não acontecerem outra vez: a desilusão, uma frustração, a nota baixa que reprovou. Em nossa vida o irrepetível representa (supremo clichê) duas faces da mesma moeda; o que se quer ou não; o que se quer lembrar e o que se quer esquecer.

No soberbo a Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, a vida é comparada a uma peça de teatro que não se ensaiou previamente o texto. Vista deste modo a situação, os erros são inevitáveis, impossíveis de correção e por muitas vezes desastrosos. É um teatro em que as personagens que saem de cena não voltam mais. As pessoas que admiramos, que queremos bem, que amamos, a existência permite a todas elas – a você que lê a crônica e a mim que a escreveu – apenas um momento. Somos todos assim, provisórios, irrepetíveis e por mais que sejamos importantes, inteligentes, bonitos, um dia – cedo ou tarde, suave ou abruptamente – seremos arrancados de cena para permanecer no que está implícito naquilo que não se repete: o saudoso. Kierkegaard, pai do existencialismo, é que tinha razão: o instante é tudo. Diante de tudo isto, resta aconselhar o que é óbvio: viva intensamente cada momento como se fosse o último, porque ele é mesmo o último. Depois da angústia de parir este texto, resta-me um consolo: esta angústia – especificamente esta – não se repetirá. A filologia devia ter ganhado um Nobel há muito tempo.

domingo, 25 de outubro de 2009

Cavalo de Fogo, o bem e o mal


Os anos oitenta produziram coisas muito legais que infelizmente não mais existem. Muitos de vocês não desejaram uma Caloi; brincaram com um pirocoptero; se divertiram horas em frente a um Atari ou então perderam as tardes de domingo assistido ao MacGyver, estrelado pelo grande Richard Dean Anderson. O tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus já nem existe mais – aliás, sequer o banco Bamerindus.

Toquei neste assunto porque me lembrei de um desenho animado daquele período chamado Cavalo de Fogo. A trama era batida, falava de uma princesa exilada que anos depois voltava para reclamar o próprio reino. Tratava-se do velho clichê maniqueísta, onde bem e mal, muito bem delimitados, eram os grandes antagonistas. Vale lembrar que estávamos nos anos oitenta, o mundo tinha lados opostos e como nos versos de uma canção da época, havia duas Alemanhas, duas Coréias, todos se dividiam, todos se separavam. Era este o universo da Guerra Fria, onde, dependendo da ótica, ora se era o bem, ora se era o mal. Naturalmente tudo no mundo rezava aquela cartilha, inclusive os desenhos animados. Aí você passava os episódios todos torcendo para que a princesinha vencesse o mal e ao final de tudo, era o que de fato acontecia. Simples assim. Cavalo de Fogo, eis um bom desenho.

Bem e mal, na cabeça de cada um, parece sempre ter tido a nítida diferença entre ambos, o conhecimento necessário para que não se confundisse nunca um com o outro. Certo? Errado. Bem e mal, que são como água e óleo, ainda são capazes de confundir. Exemplos dessa ambigüidade abundam na história: Hitler, Mao Tsé Tung, Stalin, Osama Bin Laden, a corrupção, a passividade, a oportunidade, a esperteza, a lei de Gérson (esta não foi inventada na década de oitenta, mas cabe em qualquer época), o Onze de Setembro (pode ser o dos Estados Unidos ou o do Chile), o crime, a justiça com as próprias mãos.

Em algum momento da história do mundo, os eventos e as personagens que citei foram de um pólo a outra nesta saga de opostos. O extermínio sistemático de judeus ou de qualquer outro povo já foi um dia justificado. Muitos de nós, ao presenciar a horrível morte do garoto João Hélio, desejamos fim semelhante a seus algozes – como se Justiça consistisse em lei de Talião em um estado democrático de direito. Ou quando alguém tira proveito de determinada vantagem, o que muitas vezes pode consistir em desonestidade, ato ilegal. E podem-se citar outros eventos onde não se pode definir ao certo o que é bem ou mal.

Por vezes já me peguei em dúvidas sobre o que era certo ou errado e ainda não sei o que quero, mas sei o que não quero para o mundo em que vivo. Não quero uma justiça que, incapaz de evitar o crime, mate o criminoso, mas também não aceito as condições sócio-econômicas como justificativa para que alguém se torne criminoso. Não desejo enganar ninguém, no entanto não espero que minha honestidade sirva de mote para que me ludibriem. Não espero que as pessoas reivindiquem violentamente os seus direitos, mas sei que as autoridades não podem se calar diante do pacifismo. Não quero que o governo se esqueça dos oprimidos, mas também não espero que os oprimidos esqueçam que existe algo chamado propriedade privada. Não quero abusar da paciência de ninguém, mas não quero ser esquecido nos labirintos da burocracia.

Bem e mal são opostos, isto é claro e evidente. Só que não é lícito que se manipule os fatos, transformando o mal de uns em bem para outros. É importante lembrar que a Justiça não é cega para se omitir diante das torpezas, mas sim para não nos diferenciar uns dos outros. A dessemelhança entre bem e mal é saber se aquilo a que se chama benefício agrada a todos e não apenas uma parcela. Portanto, se a felicidade se torna prejudicial para alguém, tem algo de errado nisso. Nos anos oitenta eu enxergava isto bem melhor. Ah, que saudades do Cavalo de Fogo!

domingo, 18 de outubro de 2009

Melancolia


Têm dias que a gente acorda, não sabe por que, melancólico. Natural. Como não sou melhor que o resto do mundo, acontece comigo com bastante freqüência. É aquela ponta inominável de tristeza capaz de descolorir o azul de qualquer dia bonito; tornando opaca a transparência; o passageiro em perpétuo; estas naquelas. Que não me venham nestas horas com a conversa hipócrita de que existem pessoas que sofrem por motivos bem mais cabíveis que os meus. Besteira. Que não me venham com isso. Lamento muito por quem é meu irmão no sofrimento, mas minha dor também é genuína.

Pois acordei assim: melancólico. Gostaria muito que quando estivesse desse jeito, pudesse ficar quieto na minha, apenas cuidando de meus filhos e afazeres. Só que o mundo não pára esperando que você tome fôlego. É necessário fazer como todos: viver a vida. Mesmo que isso signifique morder a fatia amarga daquilo que não se deseja. Infelizmente nesse dia tive de sair de casa com ela – a melancolia – pegada às costas.

A minha rotina inclui pegar um ônibus, mas se você está chateado por algum motivo – como eu estava – e tem de pegá-lo lotado, com gente que ainda por cima acha possuir o direito de não enfrentar fila, uma tarefa dessas, que já não é fácil, torna-se ainda mais árdua. Com muito custo subi no coletivo e – para completar o meu dia ruim – fiquei em pé, remoendo os pensamentos daquela manhã. Por acaso ou divina providência, apareceu um assento vago e como ninguém se manifestava ocupá-lo, o ocupei. Uma vez sentado, continuei em minha melancolia. Foi quando vi uma senhora, já curvada pelo vagar dos anos, rompendo com muito custo a multidão de passageiros. Como já disse antes, estava melancólico, mas não mal-educado. Ofereci-lhe o lugar e ela, após muita resistência, concordou em sentar-se. Ela agradeceu a gentileza, falando o quanto eu era educado, belo e jovem. Tive vontade de dizer a ela que nunca me achara belo e que já não era tão jovem – já estou na casa dos trinta –, mesmo assim aceitei calado o elogio. Também pediu que segurasse minhas coisas e como aquelas eram pesadas, hesitei e por fim acabei dando-lhas. No momento em que as transferia de mim para ela, cruzamos nossos olhares. Como quem diante de um poço sem fundo, se debruça para ver seu interior, vi os olhos de quem vive e envelhece estoicamente em um mundo de agruras.

A senhora que eu não conhecia e que podia ser muito bem a avó que também não conheci, acabou me ensinando – sem nada querer ensinar – mais que todas as religiões do mundo, me ensinou que o tempo passa pela gente, mas algo de nós permanece imutável, indiferente à corrupção dos anos e que estar só no mundo é uma escolha que embora ruim, pode ser muito bem superada se amarmos para que nos amem. Deu vontade de descer do ônibus e ir para casa, abraçar a família, dizer a eles que, apesar de meu mau-humor, daria o que tenho de melhor; o que me faz ser homem e não coisa. Pela janela, que estava aberta, vi a paisagem. O horizonte passava ora nuvem, ora árvore.

domingo, 11 de outubro de 2009

Fome de pedra


O contato diário que travo com meus vizinhos é capaz de proporcionar momentos, digamos, inesquecíveis, como no dia em que um pássaro, cujo nome me foge à memória, caiu no quintal de minha casa. O bicho em questão, aparentemente, nada havia quebrado, só que não conseguia alçar voo, então eu e meu sobrinho resolvemos tratá-lo. Tenho mesmo essa mania de samaritano com tudo que é bicho, viro até as baratas que encontro de patas para o ar. Mas como eu ia dizendo, se não voava, devia estar ferido, demandando cuidados. Como pouco entendo de pássaros e o adiantado da hora não permitia que o levasse ao veterinário mais próximo, achei melhor pô-lo em uma gaiola que há muito estava encostada lá em casa. Antes que pensem qualquer coisa de mim, a gaiola não me pertencia, mas sim a um ex-cunhado que por lá a havia deixado, sempre achei um absurdo prender em um espaço tão limitado um bicho que tinha os céus como lar. Quando já ia recolhê-lo, meu sobrinho aventou para a possibilidade dele estar com fome. É, devia estar. Pensei que era impossível arrumar algo para que ele comesse àquela hora. Além do quê, pássaros são cheios de peculiaridades, uns comem alpiste, outros comem outras coisas. O melhor mesmo seria levá-lo, no outro dia, a Alessandro, um vizinho meu que desde pequeno criava toda espécie de ave. Fomos dormir.
Na manhã seguinte fui falar com o tal vizinho entendido de pássaros. Foi até fácil achá-lo, estava varrendo a calçada de sua casa.
“Bom dia, Alessandro”, disse-lhe cortesmente.
“Bom dia, Thomaz”, retribuiu meu vizinho.
“Alessandro, estou com um problema lá em casa.”
“Pois diga lá do que se trata.”
“É que ontem caiu um passarinho lá no meu quintal, acho que está ferido e também com fome, mas não sei o que lhe dou de comer. Fiquei com medo de dar qualquer coisa, sabe como são esses bichos com comida.”
“É, sei. Traz o bicho que te digo o que ele come.”
Contente com a sabedoria aviária de meu vizinho, fui buscar a gaiola. O passarinho estava em um canto, mórbido – mais um indício de que deveria estar faminto.
Alessandro olhou rapidamente o animal, disse seu nome e em seguida traçou o seu cardápio.
“Pedra. Ele com pedra.”
Pensei que ele estivesse de brincadeira ou então eu havia ouvido errado.
“Alessandro, acho que não entendi. O que você disse?”
“Eu disse que ele come pedra.”
“Pedra?”, repeti incrédulo. “Como assim come pedra?”
“Pedra. Que nem as que você acha no chão.”
“Você tá de brincadeira, não é? Que Bicho no mundo come pedra?”
“Esse que você tem na mão come.”
“Poxa, Alessandro, o bicho não come desde ontem e você me vem com essa! Eu tenho que dar comida a ele.”
“Vai por mim, rapaz. Dá pedra que ele come.”
“Ah, tá bom, Alessandro”, disse enquanto ia embora. Onde já se tinha visto aquilo? Eu falando que o passarinho estava com fome e ele me mandando dar pedra para ele.
Não sei de onde meu vizinho havia tirado aquilo, mas que o bicho tinha que comer, ah, isso tinha! Mandei que meu sobrinho comprasse alpiste – que até onde eu sabia era de fato comida de pássaro –, mas quem disse que ele queria.
“Tio, o passarinho não tá comendo”, disse meu sobrinho, já sensibilizado com o jejum.
Disse para meu sobrinho continuar insistindo. Depois a gente veria com ia fazer, por enquanto eu tinha que ir trabalhar, já estava me atrasando.
No trabalho não consegui me concentrar em nada, só pensava no pobrezinho que nada conseguia comer. Devia ser o caso de levá-lo ao veterinário. Tinha que ser. Como será que era a consulta de passarinho? Já tinha visto de cão e gato, mas pássaro era novidade. O veterinário fazia o quê, mandava o bicho subir no poleiro e abrir o bico?
Voltei para casa. Meu sobrinho disse que o passarinho continuava sem comer.
Olhei-o através das grades da gaiola, ainda mais triste, muito quieto mesmo. Quando eu era menino, me disseram que aquela quietude em bichos tão agitados como eram os pássaros, era o indicativo de que estavam próximos da morte. A lembrança me encheu de preocupação. E se ele estivesse para morrer mesmo?
“Acho que vamos ter de levá-lo ao veterinário” disse ao meu sobrinho, enquanto sacudia a gaiola à espera de uma reação qualquer.
Ele nem se mexeu.
“Tio, será que ele não come pedra mesmo”, disse meu sobrinho, na mais infantil das esperanças.
“Bobagem, menino. Onde já se viu um absurdo desses”, repreendi, mas já sem tanta certeza assim. Vai que de repente ele comia pedra mesmo?
Resolvi tirá-lo da gaiola. Nem bem puxei a portinhola e o pássaro, num agito só, voou para bem longe de qualquer mão humana. Bom, pensei, se tem forças para voar, deve ter para se alimentar sozinho – até para comer pedra, se for o caso.
Faz uns quatro anos que isso aconteceu e nunca mais caiu pássaro de espécie alguma em minha casa. Dia desses encontrei com o Alessandro na rua, casualmente. Falei-lhe da história do pássaro e de como fugira de minhas mãos. Alessandro limitou-se a ouvir e reafirmar o que dissera quatro anos atrás: aquele pássaro comia pedra. Também me disse que eu havia sumido, que fazia tempo que não falava com os vizinhos.
“Ah, é? Então passa lá em casa qualquer dia desses, para conversarmos melhor. Você aproveita e almoça comigo”, convidei.
“E o que vocês costumam almoçar por lá?”
“Olha, Alessandro, geralmente comemos qualquer coisa, mas como é você que vai comer lá em casa, nós podemos comer tijolo, amigo. Tijolo.”

domingo, 4 de outubro de 2009

Só sente fome quem come


Somos seis bilhões de pessoas que vivem em um mundo apertado, escasseando todo tipo de recurso que ele tem e tudo o mais. Não demorarão quinze anos e seremos sete bilhões. Sete bilhões e fazendo as mesmas coisas que os outros seis bilhões já faziam, só que acrescidos de um bilhão. Nossa natureza é selvagem, devoradora, quase que insaciável em sua essência.
Calculamos, fazemos estatística e aritmética. A fome vai crescendo bilionária, logarítmica, progressiva e vamos calculando a nossa miséria, atrapalhados que nem macacos com o ábaco nas mãos. Viver, neste caso, é experiência única; é sentir na pele a mordida que a consciência dá naqueles que sentem o mundo crescendo invariável ao redor, sufocando, consumindo a certeza de que se é intocável.

Fazemos ginástica ioga, bebemos cerveja, uns balançam a pança, outros seguram – que a fome aperta –, plantamos mandioca, bananeira, damos até pirueta e olha que não é circo, mas não deixa de ser engraçado e no final quem morre é o público, de sede, fome, frio, cansaço, sem graça. Ai meu Deus, se este mundo – como dizem por aí– é mesmo um circo, eu já até me sinto um palhaço.

Pra se resolver o problema de nossa fome já se tentou de tudo, sobretudo no que se tem em matéria de “ismo”. “Ismo” pra cá, “ismo” pra lá, “ismo” pra todo lado. Cabalismo, zen-budismo, “achismo”, “filosofismo”. Uns, mais comedidos, tentaram o comunismo; os mais afoitos, capitalismo. Deu em “nadismo”. Eu sugiro outro “ismo”: canibalismo. Porque se comer o outro não mata a fome de quem come, pelo menos mata a de quem é comido.

sábado, 26 de setembro de 2009

Óculos



Sou míope. Irremediavelmente míope. Desses que não se separam de seus óculos para nada – às vezes nem na hora do banho. Mesmo que quisesse me separar deles não conseguiria, não enxergo um palmo diante de meus olhos. Confundo cachorro com gente; jarro com gente e certa vez achei que o eletricista, que ajeitava a fiação de um poste, fosse o boneco da malhação de Judas. Meus amigos acham meus óculos feios, grandões e se as meninas do Leblon não olham mais para mim, eu uso óculos. Já me sugeriram o uso de lentes de contato. Sempre digo que não tenho higiene para usá-las. Mentira. O que tenho mesmo é um medo danado de colocar qualquer coisa nos meus olhos. Até mesmo um simples colírio torna-se uma luta cansativa entre minha razão – que diz que devo usar o colírio – e meu corpo – que diz que não devo em hipótese alguma abrir meus olhos.

Ter medo de mexer em meus olhos é só um dos diversos medos que possuo. Aliás, não só eu, mas a humanidade toda. Temer algo pode ser um sinal de prudência ou pode ser um traço da mais absoluta covardia. Medo da morte, de dívida, de assombração. Há medo para tudo: dos mais sérios aos mais absurdos. Enquadro-me no segundo grupo, dos que tem medo de bobagem. Imaginem só, tenho verdadeiro pavor de peixe-boi. Detalhe: nunca vi, pessoalmente, um em toda a minha vida, mas mesmo assim tenho medo – vai entender! Com relação às pessoas do segundo grupo, essas têm motivos de sobra para justificar seus temores. Basta assistir quinze minutos de noticiário para se saber do que estou falando. Gente, é uma notícia mais assustadora que a outra. Alta do Dólar, crise econômica mundial, gripe suína, desemprego, violência, Fluminense na zona do rebaixamento, senado federal, Sarney – este já é até especialista, todo ano arruma um jeito novo de botar medo na gente.

Se remédio de doido é doido e meio, o antídoto para o medo só pode ser a valentia. Para tudo dizem que existe uma resposta. Então você se protege com segurança privada, com grana, com incenso e até com mandinga. Eu rezo para são Miguel Arcanjo (que, afinal, é santo de gente covarde) e você? Medo é um estado de alerta, de sobreaviso, portanto, antinatural, embora o caos em que vivamos justifique certo tremor de pernas. Um dia hei de ser valente que nem o meu avô. Hoje não, por enquanto vou ficar bem caladinho, escondido, com medo. Onde será que deixei aquela imagem de são Miguel Arcanjo?