domingo, 31 de janeiro de 2010

Casos de casal


Dedicado a um casal amigo cuja amizade não foi esquecida pela distância.


Eles nunca foram um casal muito comum. Não digo que eram simplesmente estranhos porque é palavra que ofende. Além do quê, não faz juz ao amor existente por trás de toda aquela crosta de excentricidade. Conheceram-se no colégio. Ela tinha 15 anos, fazendo a oitava série pela segunda vez. Sabe como é, menina nova, na janela, o dia todo pensando pra muito longe dos muros da oitava série. Já ele era mais sisudo, aplicado: 12 anos e na sétima série. Não sonhava tanto, ainda era mais criança que rapaz namorador.


Namoraram sem começar a namorar, ali no recreio da escola, nos horários de saída ou entre um encontro de turmas mistas – que era a única maneira de se contemplar as garotas da oitava série que passavam azuis, lilases, todas coloridas e decotadas. Ela resolveu contar tudo pelo oitavo encontro: tenho um problema, disse, te namoro; seguro tua mão; conheço os teus pais; namoro namoradinho; só não faço uma coisa: beijo não, tenho nojo, baba como baba – não suporto. Ele ficou olhando – não sabia ainda que a manifestação do afeto se dava nos encontros físicos. Concentrou-se aritmético e proferiu: não tem problema. Não? Não. Mas também quero te falar uma coisa. Fala. Não tem esse aparelhinho no meu ouvido. O que tem ele? Sem ele sou surdinho. Ah, suspirou.


Ela não gostava de beijo. Ele era surdo. Quer dizer, a doença congênita tirara-lhe 80% da audição. Tinha tudo pra dar errado. Não deu. Ela era imperiosa, brigava com ele o tempo todo, até quando não tinha razão. Ele contornava. Debaixo da saraivada de palavras, cofiava as orelhas e ocultamente desligava os aparelhos. Era engraçado vê-la reclamando que nem heroína de filme mudo. Valeu-se do recurso por pelo menos cinco anos (o tempo necessário para que a segurança do pequeno delito lhe tirasse o dom da prevenção), até que um belo dia teve a infelicidade de confirmar o que não podia ser confirmado – é que com os aparelhinhos desligados não dava para entender o que ela falava. Não deu outra: obrigado a ligar os aparelhinhos no máximo, ouviu até o que não merecia.


No décimo ano de namoro veio a decisão: iriam casar. Ela continuava firme: sem beijos, apenas em ocasiões especiais e isso porque a convenção exigia. Beijos sempre contados, no máximo quinze. Ele, ainda paciente, ainda que não pudesse mais desligar os aparelhos. No dia do casamento ela estava no altar, toda de branco, bonita como ele se lembrava na oitava série. Aceito. Ele de terno preto, alinhado, mas ainda assim acima do peso. Aceito. Pode beijar a noiva. Mais um beijo pra contabilidade escassa.


Quase vinte anos depois do não primeiro beijo e continuam casados. Brigam menos. Quase se separaram uma vez. Ela partiu pra casa da mãe. Ele foi pra um hotel. Reataram. Ela é advogada. Ele é administrador de empresas com pós em gestão hoteleira. Moram num apartamento bonito; quatro quartos e uma decoração alegre. Têm três filhos; duas meninas e um menino: Paula, Isabel e Jorge, respectivamente. Ele quer mais um. Gosta de número par e além do quê, quer acabar com a opressão da progesterona. Ela não quer mais filhos. A fábrica fechou, ela diz.


Assim se manifestou neles mais um ato da humanidade: em seus três filhos. Sei não, com essa mania de não dar beijo, ainda não sei sequer como fizeram o primeiro.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Cais


No terminal de espera do cais do porto todas as vidas se abraçam no mesmo aperto. Todos os nomes possuem o mesmo nome: espera. Os rostos são todos diferentes; as expressões se modificam (ou se mortificam?) de tempos em tempos dando a tão variados sujeitos, variadas aparências – o que tenta torná-los mais diferentes ainda. Mas é aí que a diferença se assemelha – em seu afã de tornar singulares os semelhantes, é que torna todos iguais. Não se pode dizer se é uma linha do rosto, um traço qualquer na fala ou um esgar que nada diz. No porto todos são parecidos porque esperam ou se despedem de alguém.


À frente está o mar plúmbeo, reticente, alheio aos anseios da espera. Ainda é o mesmo que foi feito por Deus, quando Este deixou cair por terra o líquido oceano. O homem atravessa o mar e nele estende as suas invisíveis pontes onde se deitam seus sonhos e seus terrores, para que no futuro outros homens estendam outras pontes e deitem outros sonhos e outros terrores. O mar será sempre o mesmo e como moeda de troca e justo tributo cobrará sempre um anseio e uma lágrima muda.


Chega do mar um navio sem nome (porque para o mar os navios não têm nomes). Saltam gentes que se misturam a outras gentes, é a saudade se materializando nos corpos. E assim como há quem chegue de algum lugar, há quem para outro parta e assim, mais uma vez, o navio que de tão longe veio, para tão longe novamente parte (levando consigo aquilo que os homens guardam dentro de si?). No terminal a rotina prossegue, uns voltam a esperar, divisando no mar um navio que ainda não existe. Outros partem levando consigo aquilo que o mar lhes trouxe à duras penas. Mudam as pessoas (por que mudam?), as esperas são outras, só o mar permanece o mesmo, abrindo em si a trilha das esperanças e sepultando em seu silêncio o segredo dos homens.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Precoce reflexão de minha tardia maturidade


Forever young, i want to be forever young.

Do you really want to live forever? Forever young?

– Alphaville, Forever young


Foi ao observar a débil tentativa de um amigo de infância em escalar um muro, que mais parecia ter-se transformado em uma montanha intransponível (dada a quantidade de panículo adiposo em sua protuberante barriga), que enfim pude perceber: os anos não voltam mais. Sensibilizado com seus padecimentos, resolvi apoiá-lo na difícil empreitada. O fato é que não prestei lá grande ajuda, meus dias de atleta com ótima constituição física também ficaram no passado. Depois de nossos esforços conjuntos, que foram seguidos de três ou quatro cervejas, falamos do bairro – onde estava apenas de visita, já que não mais resido nele –, dos vizinhos, de nossas mulheres e nossos empregos. Acho que por pilhéria mesmo, detivemo-nos no assunto do muro. Afinal, era difícil acreditar que há menos de quinze anos o escalávamos só por brincadeira.


A vida parece ser cheia de etapas e peculiaridades. Fala-se da dificuldade em ser adolescente, da crise da meia idade, da reflexão da velhice. Mas ouço pouco acerca do elo perdido que é a passagem da juventude para a vida adulta, que é ali, quando se esta nos anos vinte, onde responsabilidade é uma quimera e de repente aparecem os filhos e os compromissos. Hoje olho para meus amigos e é certo que não somos velhos e que ainda estamos cheios de vida, mas vejo que não somos mais os “garotões” que éramos – com tudo o que nossa confusão e imaturidade propiciavam –, no máximo elegantes “trintões”. Do dia para a noite deixamos de morar com os pais (estes passam a ser amparados por nós); surgem os filhos (e aí vemos o quanto não éramos tão inocentes assim na mesma idade); em alguns a barriga avança; noutros é o cabelo que recua. Finalmente o tempo passa e a natureza nos faz homens.


Desde que me casei tenho pensado muito nisso, de como a natureza nos vai inclinando a tomar decisões; a deixar uma marca no mundo. Ao contrário de alguns contemporâneos, não encaro a velhice negativamente. Penso que envelhecer é viver mais e quanto mais se envelhece, mais aumenta a capacidade de se aprender mais sobre si mesmo – claro, quando isso é possível. Não sei dizer se o fim de tudo é inevitável, não sei, pois outro dia passou uma reportagem sobre uma árvore de cinco mil anos – no caso dela, a morte está mais para acidente que fatalismo –, mas quero pensar sabiamente sobre esse tempo que passa, quero viver melhor, me preocupar com o que realmente interessa: com o amor e não com a paixão; com a essência em vez da aparência. O tempo não volta, quero ter lembranças e não saudades.

domingo, 10 de janeiro de 2010

A carta


Recebi a visita de um colega da faculdade que por puro diletantismo ainda trabalha nos correios. Ser carteiro deve ter sido a terceira ou quarta profissão que devo ter idealizado quando criança. Se não me engano devo ter quisto ser antes bombeiro, cientista ou prestidigitador, eu acho. Tinha essa lembrança em mente, quando me veio a imagem bucólica do carteiro carregando consigo lembranças e saudades impressas nas cartas. Não é bem assim, disse-me o amigo, as pessoas não mandam mais cartas umas às outras, a maioria das correspondências resume-se a cobranças de empresas especializadas e ofertas de cartão de crédito. É uma pena, concordamos.


Já me referi anteriormente sobre a minha ignorância e deslocamento neste mundo veloz de Deus. Devo mesmo é ter nascido velho numa época em que os tempos já eram outros, penso. Diante das comunicações via satélite, sms, e-mail ou sei lá o quê moderno, o hábito de mandar cartas é muito lento. Na verdade, essa ferramenta que cada vez mais entra no terreno da nostalgia, deve sua sobrevida graças à sua essência oficiosa, pois comunicações de bancos e outros órgãos, ainda, não podem ser feitas via correio eletrônico.


Não é querendo desprezar esta era que se situa em cima dos cabos de fibra óptica da vida, mas pergunto àqueles que nasceram até 85: como descrever a emoção de receber uma carta de alguém tão querido, capaz de fazer tanta falta? Ou ainda, como falar da angustia que consome quem a enviou, na intenção de por nela o que de mais nobre pode ter uma alma? Não. Não há meio de comunicação capaz de proporcionar sensação igual. A vida voa, é a mais absoluta verdade, e hoje não se vive como se viveu cinqüenta anos atrás, assim como nada será igual nos vindouros cinqüenta anos que nos aguardam. O tempo é assim mesmo, ganha e perde acessórios; cria “novas tradições” ao tornar outras sem uso, assim como anda fazendo com as cartas. Quem sabe no futuro, nas viradas que o homem dá por aí, ele não acaba criando um meio, dentro das próximas medidas de convivência, de matar tão eficazmente as saudades como fazia uma carta belamente escrita.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O que você tem a fazer este ano?


Fim de ano é a mesma coisa, aquele monte de listinhas que se faz para se melhorar de vida no ano seguinte. Parar de fumar, parar de comer, ser uma pessoa melhor. Enfim, o ano que termina sempre deixa algo a desejar, daí a intenção de fazer as tais listinhas: preencher as lacunas da vida. Depois do espocar dos fogos, a humanidade tem mais 365 dias para purgar os seus erros. Se for fato que o mundo foi concebido em sete dias, é tempo bastante para se ajeitar a vida.

Tempo é algo curioso, ele não existe, é apenas mais uma de nossas convenções. Vivemos no infinito e para que não enlouqueçamos no eterno, sabendo que todo o universo, e o que há nele, existirá indiferente à nossa presença, inventamos algo que só existe em nossas cabeças: o tempo. Afinal, não fará diferença para um cachorro, por exemplo, se são três horas da tarde, ele no máximo irá cheirar o relógio. Mas para quem só tem quinze minutos para executar algo complexo, três horas é o paraíso.

Então se o tempo não existe por si próprio e sim em nossas cabeças, o que nos resta é a fé. Fé naquilo que não se pode ver. A passagem do ano é um rito de passagem onde se tenta atrair a boa vibração do que é novo. Nestas horas vale tudo, apelar para todos os santos, para todas as crenças ou simpatias. O importante é acreditar no bem. No fim das contas, acreditar no bem, ainda é a melhor pedida para o ano que acaba de chegar. Comer lentilha, pular onda, tomar banho de mar. A melhor simpatia para 2010 é ser feliz. Feliz ano novo.

P.S – Gostaria de avisar aos leitores deste blog que, devido a problemas pessoais, nas próximas duas semanas não serei tão atento a todos os que me dão tanta atenção. Desde já sou grato a compreensão, prometendo retornar à normalidade nos próximos vinte dias.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Os grandes mistérios do mundo

Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência.

– Arthur Schopenhauer

Quando criança eu queria a solução dos mistérios do mundo. Também achava difícil uma explicação de base material para tudo o que existe. Duvidava, mas não com estas palavras, duvidava com palavras de criança. Apelava sempre para uma retorsão que ia até o infinito e terminava por dar um nó em minha cabeça. Deus fez o mundo, fez tudo, mas de onde Ele vinha? Perguntava.


Cresci e como diria Pessoa, estudei, amei e até cri, ainda assim não me satisfazia com o que se apresentava a mim. Estudei filosofia, busquei os mecanismos do mundo e aprendi que existem mistérios que não são tocados pela limitação humana.


Hoje em dia, ainda sem nenhuma certeza de minha existência material, gosto de pensar no mundo como um livro em que Deus escreve continuamente, enxertando ou excluindo personagens da história do infinito. Deus estabelece a trama, cria as reviravoltas da estrutura, vai moldando o caminho das personagens. Fico imaginando que tipo de história faria se esse enredo parasse em minhas mãos só um instantezinho que fosse. O que seria? Um drama? Humor? Ficção científica? Policial? Talvez eu fizesse um poema mesmo, se eu soubesse ser poeta.


Às vezes me angustia pensar que o mistério da vida possa ser apenas o mistério da vida. Eu queria que fosse diferente. A minha vizinha, por exemplo, sempre relaciona o surgimento de um fenômeno natural aos seus joanetes doloridos ou então justifica a ruína financeira de alguém por meio de uma série de eventos comuns como o mau olhado – nada que um galhinho de arruda não dê jeito, ela diz. Para ela o mistério do mundo não existe, pois as causas do mundo estão no próprio mundo, para que todos possam ver. Se ela não consegue responder algo, diz que foi a vontade de Deus e pronto, tudo resolvido. Minha vizinha não sabe quem foi Platão. Nunca deve ter lido Kant. Não sabe para que servem as leis de Newton. Exegese bíblica para ela deve ser palavrão e com certeza não sabe que graças a Einstein o universo não é mais plano como cria Euclides. Nossa, tem gente que realmente sabe o que é viver.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O dia que a floricultura fechou






Trazia minha mãe de uma consulta médica, onde a havia levado a fim de que tratasse de alguns reumatismos que os anos lhe deram, quando enfim percebi que a floricultura fechara as portas. Podia tê-las fechado há meses, mas me dei conta somente naquele momento. Como estou acostumado a me locomover para os lugares de ônibus, sendo sempre o passageiro e não o condutor, aprendi a ver o mundo assim, de passagem – o que quem sabe poderia justificar a minha relutância em dirigir. Foi numa das várias olhadas que dou pela janela, entre um dos pontos em que o ônibus se permite parar, seja para a subida ou descida de passageiros, que tomei conhecimento de mais aquela falência. Entristeci.


Sei que uma floricultura é apenas mais um negócio guiado pelos ditames do capitalismo. Porém, se me perguntassem sobre o que preferia ver fechado, uma floricultura ou um banco, mil vezes diria o banco. Um banco trabalha com variáveis, com taxas de câmbio, estatísticas, com números. Enfim, com o que é relativo ao dinheiro. E as pessoas que trabalham no banco ou dele são clientes, estão sempre de um dos lados do balcão de atendimento, guarnecidos de quaisquer emoções. Uma floricultura não, ela é diferente, mesmo que esta seja voltada para o lucro, ainda assim existe nela um exercício de paciência, onde está envolvida a dedicação e até mesmo o amor dos seus envolvidos. Uma floricultura trabalha com o belo, com os sentidos, com a alma. E no fim das contas, o bem que se almeja não é o do comerciante nem do comprador, mas daquilo que é vendido, as flores.


Em nossos dias conferem-se nos dedos as artes preocupadas em realizar o melhor que elas possuem em si mesmas. Boa parte delas, senão sua quase totalidade, vem se preocupando com o que é mais eficaz, mais lucrativo. Se não é capaz de atingir o esperado, fecha as portas como a pobre floricultura. O que me faz pensar se nossas paixões não andam sendo pautadas por esse sentimento de poder e conquista que não permite um olhar desinteressado em proveito daquilo de mais importante que tem o humano: a sua humanidade. Escrevo entristecido ao constatar essa amarga verdade e ao fazê-lo contemplo um belo vaso de flores de plástico. As flores de plástico não morrem, este é o problema delas.