
Instintivamente eu já sabia disso, mas agora deu até em jornal britânico de medicina. A solidão mata. Sim, mata mesmo. A expectativa de vida de um solitário é a mesma de um fumante, é muito parecida com a de quem tem problemas com álcool e um fator de risco mais perigoso que obesidade e sedentarismo. Na qualidade de ex-fumante e ex-solteiro, sinto um grande alívio – agora é só tomar cuidado com as outras estatísticas.
Sempre fomos muito mais do que aquilo que imaginamos de nós mesmos. É que temos a tendência de diminuir nossas qualidades, reduzi-las a um certo número de atributos quantificáveis e facilmente adquiridos com qualquer cartão de crédito. Nunca fui adepto desse papo de consumismo exagerado, capitalismo selvagem e tudo mais, porque o capitalismo e consumismo não existem, o que existe são pessoas que agem nocivamente, isolando-se em ilhas de si mesmas, onde são árbitras de si mesmas.
As ditas doenças modernas agora são um fato, começam a vigorar nas pautas dos grandes planos de saúde, nos anúncios de cigarros, nas embalagens de bebida e grifes de boutique. É triste saber que uma pessoa cheia de si está morrendo mais cedo porque está justamente cheia de si; uma espécie de preenchimento que não ocupa espaço algum. No Brasil as casas têm deixado de ser ocupadas por seis pessoas, na medida em que cresce a demanda de apartamentos para uma só; casais não pretendem mais ter filhos; aumenta a compra de forno microondas (o que, em minha opinião, é um eletrodoméstico feito para suprir a necessidade de quem é solteiro, assim como outros apetrechos do mundo urbano); tem-se comido miojo como nunca em grandes e requintadas travessas solitárias. Aí surge a pergunta: o que nós temos a ver com isso? Sei lá, na maioria das vezes a gente não quer nem saber do que está acontecendo em baixo de nossos narizes.
Bons talvez fossem os tempos de nossos avós, quando todo mundo se conhecia e quando acabava o açúcar, a gente não corria para o supermercado, mas batia na porta do vizinho. Quando se tinha família de cinco filhos e se ia à missa de Domingo. Quando a rua se juntava para picotar bandeirinha para copa do mundo. Quando as pessoas davam bom dia na rua ou quando ainda se incomodavam com os fuxicos da vizinha, que pelo menos sabia o nome da gente. Bons deviam ser os tempos em que as pessoas eram menos solitárias, respiravam melhor, abraçavam como mais facilidade e não ficavam hesitantes, como hoje ficam, ao perguntar: vai um abraço aí, vai?